domingo, 13 de dezembro de 2009

Desesperança

Texto de Maria Nina Calado

Estamos à mesa meu amigo e eu. Diante de nós uma pizza enorme. As pessoas da casa saíram pra jantar e trouxeram o que sobrou pra mim e meu amigo.

É de causar espanto. O que sobrou foi muito, era quase a pizza toda. Passamos longo tempo olhando, sem acreditar. Até que eu peguei a faca e fui dividir a pizza. A lâmina passou perto dele e... fugiu.

Melhor assim porque eu como as sobras. Continuo comendo o que sobrou, sei que bem mais tarde ele vai voltar. Ele sim, vai comer o resto dos restos. Pela primeira vez.

Fiquei com dó, trouxe meu pedaço de volta. Não comi e coloquei o pedaço de volta ao prato para quando ele voltasse. Fui ao quarto trocar de roupa e quando voltei ao me aproximar da mesa, vi meu amigo deitado com a patinhas pra cima e a barriguinha cinza luzindo. Os olhos estavam fechados cerimoniosamente.

Entendi por que me deram tanto. Estava estragada, fria, deteriorada, sem gosto. É sempre assim. Eles prolongaram minha estadia nesse espaço agora vazio. Porque eu sou um borrão, traços esquecidos.

Quem sabe, encontro outro amiguinho que me faça esboço não apenas traços. Promessas sem decepção e que minha vida aqui seja um prolongamento, uma permanência e que eu tenha uma morte, "morte suave".

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